CONTOS • FRAGMENTOS DE IVAN
A boca afaga, alegra, seduz, diz, embeleza e toca. Talvez seja uma das partes mais fascinantes do corpo, justamente porque consegue revelar sentimentos que nem sempre estamos preparados para confessar.
Enquanto escrevo, volto à primeira vez em que vi o seu sorriso pessoalmente. Não havia nada de especial acontecendo ao redor. Você apenas conversava com algumas pessoas, à vontade, movimentando as mãos, ajeitando o cabelo, rindo de alguma coisa que eu provavelmente nem ouvi.
Não ouvi porque estava distraído demais tentando entender por que uma boca podia prender tanto a minha atenção.
Suas palavras saíam naturalmente, mas meus pensamentos não conseguiam acompanhá-las. Eu observava o movimento dos seus lábios, o instante em que se abriam para uma palavra, a pausa breve antes de outra. Era como assistir a uma dança sem conhecer a música e, ainda assim, desejar que nunca acabasse.
Você não usava nada extraordinário. Não havia uma cor chamativa, um batom cuidadosamente escolhido, qualquer artifício que justificasse tamanho encantamento. Era apenas a sua boca, com a beleza despreocupada de quem sequer imagina estar sendo admirada.
Até que você sorriu. E eu sorri junto.
Um sorriso bobo, quase infantil, daqueles que escapam sem autorização e denunciam tudo o que tentamos esconder. Fiquei com vergonha de mim mesmo, porque achei que alguém perceberia. Mas talvez o encanto tenha justamente essa característica: quando é verdadeiro, pouco se importa com a elegância das nossas defesas.
Depois você se aproximou. Finalmente conversamos mais de perto. E foi ainda pior para o homem que se julgava tão capaz de encontrar as palavras certas. Eu me atrapalhei. Perdi o começo de algumas frases, inventei outras pelo caminho. Você falava e eu tentava responder, enquanto uma vontade imensa de descobrir o sabor dos seus lábios me tirava qualquer possibilidade de concentração.
Talvez seus olhos já soubessem. Talvez o sorriso discreto que surgiu entre uma frase e outra fosse a sua maneira de dizer que percebia alguma coisa. Gosto de acreditar nisso, porque torna aquele instante ainda mais bonito.
Não sei exatamente quando deixamos de conversar para começar a nos procurar. Sei que a distância diminuiu, que o ar pareceu mudar de temperatura e que, em um intervalo pequeno demais para ser explicado, sua boca encontrou a minha.
O primeiro beijo veio forte, demorado e cheio de intenção. Não porque houvesse pressa de terminar, mas porque parecia reunir todos os beijos que ainda não tínhamos tido coragem de imaginar.
Eu me lembro da proximidade do seu rosto, do cuidado das suas mãos, da maneira como o mundo perdeu o volume. Houve um segundo em que abri os olhos e encontrei os seus tão perto que tudo o mais pareceu distante. Depois voltei ao beijo, como quem finalmente compreende uma linguagem desconhecida.
Desde então, a sua boca continua me desarmando. Quando você fala, eu observo. Quando sorri, alguma parte de mim se ilumina. Quando se cala e chega mais perto, já sei que as palavras estão prestes a se tornar desnecessárias.
E quando a saudade aperta, é justamente dela que mais me lembro. Do contorno, da maciez, do movimento pequeno antes de sorrir. Da sensação de ter encontrado um lugar onde o amor e o desejo conseguem existir sem pedir licença um ao outro.
Você pode até achar exagero. Mas então tem a tua boca… Essa talvez seja minha perdição favorita.
Ivan Placido
