Coração-Abrigo

Duas mãos formando o contorno de um coração diante de luz dourada.

CONTOS • FRAGMENTOS DE IVAN

Eu só tenho o meu coração para te oferecer. Sei que a frase pode parecer pequena diante de tudo o que sinto, mas é nela que encontro a parte mais sincera de mim.

Não é um coração perfeito. Não vem intacto, embrulhado em promessas grandiosas. Carrega marcas de silêncios que gritaram por dentro, de esperas que se prolongaram demais e de amores que não souberam ficar. Algumas cicatrizes já quase não aparecem. Outras ainda se revelam quando alguma lembrança encosta nelas sem avisar.

Durante muito tempo, achei que a melhor maneira de viver fosse me proteger. Construí cuidados em torno de tudo o que sentia, inventei distâncias, aprendi a não esperar muito. Demorei para perceber que, tentando me defender de futuras dores, eu também me afastava das coisas bonitas que poderiam acontecer.

Eu me protegia, sobretudo, de mim mesmo. Do homem que se entrega quando ama, que repara nos detalhes, que lembra do perfume, do jeito de sorrir, da palavra dita sem intenção. Do homem que sabe ser abrigo para alguém, mas que nem sempre admite precisar de um.

Então você chegou. E não chegou tentando consertar nada.

Talvez tenha sido essa a diferença. Você não pediu que eu apagasse o passado, que escondesse minhas marcas ou que fingisse uma tranquilidade que ainda estava aprendendo a sentir. Apenas me olhou com atenção. Fez perguntas. Respeitou os silêncios. Ficou presente de um jeito que, pouco a pouco, foi tornando desnecessárias tantas defesas.

Não houve um grande acontecimento que mudasse tudo de uma vez. Houve pequenos gestos. O cuidado com uma palavra. A paciência diante de uma insegurança. Sua mão procurando a minha enquanto eu falava de algo difícil. A delicadeza de me deixar descansar sem fazer desse descanso uma dívida.

Eu descobri que amar de verdade não é apenas sentir alguma coisa muito forte dentro de si. Alguém precisa encontrar esse sentimento do outro lado. Alguém precisa mostrar que carinho também pode ser troca, que a entrega não exige desaparecimento e que continuar sendo quem somos é parte do encontro.

Às vezes você me assusta, justamente porque é boa demais para algumas certezas antigas que eu carregava. Há momentos em que ainda procuro motivos para desconfiar da felicidade, como se ela precisasse justificar por que resolveu chegar.

Mas então você sorri. E minhas perguntas perdem força.

Não tenho promessas de uma vida sem conflitos, sem saudade ou sem dias difíceis. Isso seria oferecer uma fantasia no lugar de um amor. O que tenho é a vontade de construir, com você, um lugar em que possamos atravessar essas coisas sem deixar de cuidar um do outro.

Quero ser o abraço que recebe seu cansaço. A palavra que não exige resposta imediata. O ombro onde você possa descansar sem precisar explicar tudo. Quero aprender a reconhecer quando a sua alma precisa de silêncio e quando precisa que eu me aproxime um pouco mais.

E, quando você quiser, que meu abraço também possa guardar a mulher inteira que existe em você: a forte, a delicada, a provocante, a cansada, a que ri alto, a que tem medo e a que nem sempre sabe o que dizer.

Não quero que você se sinta responsável por curar o que a vida deixou marcado em mim. Esse caminho também é meu. Quero apenas que saiba que, mesmo com as marcas, eu escolho continuar sentindo. E, hoje, escolho sentir ao seu lado.

Se aceitar o que lhe ofereço, não receberá alguma coisa perfeita. Receberá algo que considero raro: um coração que já conheceu tempestades e, mesmo assim, ainda deseja ser abrigo.

E talvez o mais bonito seja perceber que, enquanto tento construir esse abrigo para você, descubro que já encontrei o meu em seus braços.

Ivan Placido

← Voltar à biblioteca de contos