Entre Olhares e Silêncios

Casal se beijando em close, com a mão dela apoiada no rosto dele

CONTOS • FRAGMENTOS DE IVAN

Teus olhos, assim como teus lábios, são como labirintos. E eu não posso negar que adoro me sentir perdido, de vez em quando, principalmente quando é você quem me oferece o caminho sem me contar a saída.

Eu nem preciso ter você por perto para lembrar de como me olha. E não estou falando daqueles olhares distraídos, tão comuns, que encontram o rosto de alguém por um segundo e logo procuram outra coisa. Falo do olhar com intenção. Daquele que atravessa os olhos, a janela que inventamos para proteger o que existe dentro de nós, e vai tocar justamente onde as palavras raramente conseguem chegar.

Há uma espécie de silêncio no seu olhar que me deixa sem defesa. Às vezes você não diz nada. Apenas me observa, demora um pouco mais, deixa surgir um sorriso quase imperceptível. E alguma coisa em mim muda de lugar. Como se, naquele instante, eu tivesse sido visto por inteiro, até nas partes que me acostumei a esconder.

Foi assim desde o começo. Antes de conhecer o gosto da sua boca, eu já conhecia o fascínio de observá-la. Você conversava com outras pessoas, ajeitava o cabelo, movia as mãos para acompanhar uma história, ria sem perceber que havia alguém completamente distraído por causa do seu sorriso.

Não havia nada ensaiado. Não havia maquiagem especial, um gesto calculado ou intenção de seduzir. Eram apenas seus lábios se movendo enquanto você falava. E, de alguma maneira, eu era incapaz de prestar atenção em qualquer outra coisa.

Até que você sorriu. E eu sorri junto, feito menino, sem pedir licença ao rosto. Um sorriso bobo, sincero, daqueles que surgem antes que a razão consiga organizá-los.

Depois veio a proximidade. A conversa mais baixa. Um intervalo em que as palavras começaram a faltar, não por ausência de assunto, mas porque nossos olhos já estavam ocupados demais dizendo aquilo que nossas bocas ainda tentavam disfarçar.

Eu me lembro do primeiro beijo como quem se lembra de uma mudança de estação. O mundo não parou, eu sei. As pessoas continuaram andando, os sons continuaram existindo, o tempo não deixou de correr. Mas tudo aquilo perdeu a importância quando sua boca encontrou a minha.

Não foi apenas o encontro dos lábios. Foi a confirmação de uma vontade que já vivia escondida entre nossos olhares. Foi perceber sua mão se aproximando, a hesitação de um instante, a coragem dos dois no instante seguinte. E descobrir que havia, naquele beijo, uma intimidade que parecia muito mais antiga que nós.

Hoje me pego reparando na dança que seus lábios fazem quando você fala. No modo como uma palavra começa quase sorrindo. Na pausa antes de outra. No jeito que sua boca parece guardar uma provocação que só eu consigo ouvir.

Mas o que mais me desconcerta continua sendo o silêncio. Aquele pequeno intervalo em que você fica perto, me olha e não diz absolutamente nada. Então seus dedos encontram meu rosto e você se aproxima devagar, como se soubesse que a espera também faz parte do beijo.

É quando eu entendo que existem sentimentos que não precisam de discurso. O amor, às vezes, cabe em dois rostos próximos e no cuidado com que um recebe o outro. O desejo, em uma respiração que muda de ritmo. A saudade, na vontade de não soltar.

Não sei quantas vezes ainda vou me perder nos labirintos que você carrega. Nem quero aprender todas as saídas. Algumas perdições são tão bonitas que deixamos de chamar de perigo.

E se algum dia me perguntarem o que encontro quando olho para você, talvez eu não saiba responder. Porque seus olhos me levam para dentro da sua alma, e sua boca me faz querer ficar.

Há beijos que permanecem muito depois de terminarem. Os seus, por alguma razão, nunca terminam completamente em mim.

Ivan Placido

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