CONTOS • FRAGMENTOS DE IVAN
Queria eu poder me vestir em você, como um vestido que toca tantas partes do seu corpo ao mesmo tempo. Parece uma imagem impossível, quase uma utopia, mas é justamente nisso que penso depois de receber um daqueles seus abraços que não têm pressa de terminar.
Não estou falando de um abraço distraído, desses que cumprimentam e logo se desfazem. Falo do abraço inteiro. Aquele em que nossos pés se aproximam, os joelhos se encontram, as coxas procuram lugar, os quadris se encaixam com naturalidade e o peito reconhece o peito. Até nossas cabeças descansarem nos ombros um do outro, como se soubessem exatamente onde ficar.
Há sempre um instante em que o mundo perde a voz. Não porque deixe de existir, mas porque não consegue competir com a tranquilidade que encontro ali. Ouço sua respiração perto do meu ouvido. Sinto seu perfume misturado ao calor da pele. Percebo o movimento pequeno de sua mão nas minhas costas e começo a entender que repouso não é necessariamente um lugar.
Às vezes, no intervalo desse abraço, nossas bocas se encontram. Um beijo lento, outro mais demorado. Depois voltamos a nos apertar, como se estivéssemos tentando diminuir uma distância que já não existe. É curioso como o desejo e o sossego conseguem morar no mesmo gesto. Eu te abraço porque quero você perto. E quero você perto porque, com você, aprendi a descansar.
Passei tanto tempo acreditando que precisava estar atento a tudo. Cuidar, prever, resolver, sustentar o que fosse preciso. Em algum momento, confundi amor com a obrigação de jamais demonstrar cansaço. Aprendi a oferecer abrigo aos outros, mas não sabia o que fazer quando alguém me oferecia o próprio.
Até ouvir de você aquelas palavras simples: ‘Todas as vezes que se sentir cansado, eu me empresto para ser seu lugar de descanso.’
Talvez você nunca tenha imaginado o que uma frase assim foi capaz de tocar. Não havia exigência, cobrança ou condição escondida. Era apenas cuidado. Uma porta aberta em um lugar de mim que eu havia aprendido a manter fechado.
Depois disso, comecei a perceber a grandeza dos nossos momentos mais comuns. O café da manhã, a voz ainda carregada de sono, uma conversa boba, o tempo passando enquanto não fazemos absolutamente nada. Nunca pensei que fosse possível me sentir tão à vontade ao lado de alguém e, ao mesmo tempo, ter tanta vontade de permanecer.
Éramos duas pessoas entregues uma à outra, descobrindo o prazer de dividir não apenas os beijos e a vontade, mas também os intervalos. O silêncio. O descanso. A presença sem obrigação de preencher cada segundo com alguma coisa.
Eu não precisava procurar o que faltava naquele momento. Porque não faltava.
Ao seu lado, algumas partes minhas, acostumadas à inquietação, enfim encontraram onde repousar. E foi assim que entendi uma coisa que antes parecia contraditória: você não me completava porque eu fosse metade. Você me completava porque, ao seu lado, eu conseguia ser inteiro.
Hoje, quando nos despedimos, ainda levo comigo a lembrança daquele abraço. Ele demora um tempo para acontecer e uma eternidade para ser esquecido. O problema, se é que existe algum problema nisso, é que eu não esqueço.
Porque quem me abraçou não foi apenas seu corpo. Não foi o toque, nem o que meus olhos puderam enxergar. Foi a sua alma encontrando a minha, num movimento de dentro para fora.
E agora esse abraço está marcado em mim. Não como uma lembrança que machuca, mas como a certeza de que existe um lugar para onde posso voltar.
Você pode chamar de amor. Eu, de vez em quando, prefiro chamar de casa.
Ivan Placido
