Nosso Encontro

Silhuetas de um casal se abraçando em iluminação quente e escura.

CONTOS • FRAGMENTOS DE IVAN

Há um instante, sempre que estamos juntos, em que nossas palavras começam a perder espaço para outra linguagem. Não é falta de assunto. Nunca foi. É apenas aquela vontade que cresce devagar, atravessando uma conversa, interrompendo um sorriso, encontrando um motivo para aproximar ainda mais nossos corpos.

Às vezes tudo começa com um abraço. Um desses que deveria durar alguns segundos e termina ocupando uma parte inteira da noite. Você aproxima o rosto, encontra meus olhos e demora ali, naquele limite delicado entre a provocação e a ternura. Eu sinto sua respiração mudar. Você percebe a minha. E os dois sabemos que alguma coisa está prestes a acontecer.

O primeiro beijo costuma vir lento, como se estivéssemos tentando recuperar o tempo que passamos longe. Depois outro. E outro. As mãos procuram os lugares familiares, descobrem novamente o desenho dos ombros, a curva das costas, o calor que nenhuma lembrança consegue reproduzir por completo.

É curioso pensar que dois corpos possam se reconhecer assim. Sem precisar de instruções, sem cerimônia, apenas seguindo um ritmo que parece nascer no próprio encontro. A proximidade faz o silêncio crescer, e cada gesto passa a dizer muito mais do que uma frase conseguiria.

Nossos corpos se encaixam em um silêncio quase absoluto. O mundo continua existindo do lado de fora, mas já não tem importância. Dentro daquele abraço há apenas a pele aquecida, os fôlegos próximos e a sensação deliciosa de estarmos exatamente onde queremos estar.

Eu gosto de observar suas pequenas reações. O sorriso quando percebe que estou reparando. A maneira como me puxa para perto quando uma distância mínima parece grande demais. O instante em que apoia a cabeça no meu peito, deixa os olhos fecharem e transforma a intensidade de antes em uma calma que só você consegue me oferecer.

Porque o nosso encontro nunca foi feito apenas de desejo. Seria fácil falar da beleza da sua pele, da intensidade dos beijos, da vontade que insiste em reaparecer mesmo depois de horas juntos. Mas eu estaria contando só uma parte da história.

A outra parte existe quando você repousa em meus braços e não precisamos fazer absolutamente nada. Quando o coração vai encontrando o próprio ritmo outra vez. Quando uma mão continua acariciando a outra sem pressa, não para despertar algo novo, mas simplesmente porque tocar você também é uma forma de permanecer.

Talvez seja essa mistura que mais me fascine. A possibilidade de viver a provocação e o cuidado, a inquietação e o descanso, a loucura de querer e a serenidade de ter você ali, tão próxima que já não existe diferença entre o que eu sinto e aquilo que meu abraço tenta dizer.

Há noites em que penso que gostaria de guardar todos esses detalhes. O perfume que fica na roupa. A música esquecida ao fundo. A luz quase apagada. O jeito que você me chama baixinho, o riso inesperado, a conversa que surge quando achávamos que não tínhamos mais nada para falar.

Mas sei que memória alguma dará conta de tudo. Ela poderá me devolver imagens, vozes, pequenas cenas. Nunca a sensação completa de estar vivendo o amor e o desejo com a mesma pessoa, ao mesmo tempo.

Por isso, quando você se aproxima novamente, eu não tento interromper o instante para compreendê-lo. Apenas te recebo.

Porque há encontros que não precisam de grandes acontecimentos para se tornarem inesquecíveis.

Basta você. Basta eu. Basta o nosso silêncio, tão cheio de tudo.

Ivan Placido

← Voltar à biblioteca de contos