CONTOS • FRAGMENTOS DE IVAN
Nem nós sabíamos que precisávamos de um espelho. Engraçado pensar nisso agora, porque sempre achei que conhecia muito bem a imagem que ele era capaz de devolver. Durante a vida inteira, usei esse objeto para conferir o rosto, ajeitar uma roupa, procurar algum sinal do tempo. Nunca imaginei que um dia fosse encontrar nele uma maneira tão diferente de olhar para nós dois.
Naquela noite, o espelho estava ali, quase por acaso. Não havia nada de extraordinário em sua moldura, em seu tamanho ou no lugar onde estava. O extraordinário era você. Era a maneira como se aproximava de mim, como seus olhos encontravam os meus e como a vontade, que já nos acompanhava havia horas, parecia crescer dentro de um silêncio cheio de intenções.
Houve um instante em que nossos olhares se desviaram para o reflexo. E eu me lembro da sensação com uma nitidez desconcertante. Era como enxergar de fora aquilo que, por dentro, já nos consumia. Dois corpos tão próximos, duas pessoas tão entregues, uma intimidade que eu conhecia pelo toque, mas nunca havia contemplado daquele ângulo.
O espelho, afinal, não mostrava apenas a aparência. Devolvia os detalhes que a pressa costuma roubar. O jeito que sua mão procurava a minha. O abandono dos seus ombros quando percebia que podia relaxar. O sorriso breve entre um beijo e outro. A forma como você fechava os olhos e voltava a abri-los para me procurar, como se quisesse ter certeza de que eu continuava ali.
E eu continuava. Inteiro. Presente de um jeito que nem sempre consigo explicar quando tento transformar nossas lembranças em palavras.
Lembro-me da música atravessando o quarto em volume baixo, do perfume que se confundia com o cheiro da nossa pele, da respiração já sem a calma do começo. Havia desejo, é claro. Havia aquela inquietação deliciosa, os beijos demorados, a proximidade que fazia a pele inteira despertar. Mas havia algo mais difícil de nomear: a confiança de se deixar ver de verdade.
Foi isso que o reflexo me revelou. Não apenas a beleza de uma mulher que eu desejava loucamente, mas a delicadeza de uma mulher que se permitia estar comigo sem reservas. E, talvez, a minha própria transformação diante dela. O homem acostumado a conter sentimentos, sempre tão atento ao que poderia perder, naquele momento parecia incapaz de desejar outro lugar.
O tempo passou como costuma passar nas noites que gostaríamos de estender. Sem pedir licença. Quando percebemos, restavam a cama desarrumada, a música quase esquecida, o gosto dos nossos beijos e a tranquilidade de você repousando em meus braços.
Ficaram também algumas fotografias. Gosto delas. Às vezes volto para olhá-las e sorrio sozinho, porque sei que guardam uma parte pequena da verdade. A fotografia congela a luz, a posição, um fragmento de segundo. Não consegue guardar o som da sua voz, a temperatura do abraço, os risos inesperados ou o perfume que insiste em existir dentro da memória.
Essas coisas permaneceram em nós. Vivíssimas. Como uma tempestade de sentidos que, curiosamente, terminou em paz.
Talvez essa seja a descoberta mais bonita daquela noite. Nós não precisávamos de um espelho para saber que nos desejávamos. Precisávamos dele para perceber, de outro ângulo, o quanto estávamos sendo felizes.
Porque ter a paz do amor e a loucura do desejo na mesma pessoa é uma raridade. E eu vi, naquele reflexo, que a minha raridade estava nos meus braços.
Ivan Placido
