CONTOS • FRAGMENTOS DE IVAN
Jamais pensei que fosse chorar daquela maneira outra vez. Não por ter perdido alguém, não porque o amor tivesse acabado, mas por causa de uma ausência que a razão insistia em explicar e que o coração simplesmente se recusava a compreender.
É estranho tentar falar da saudade para quem nunca a sentiu assim. Sempre imaginei que fosse um pensamento triste, uma lembrança acompanhada de vontade, uma espécie de vazio que se aprende a suportar até o reencontro. Mas descobri que ela também tem peso, temperatura e lugar no corpo. Às vezes começa no peito e desce até a barriga, como uma ânsia que não sabe o que procura.
Nos dias em que estamos longe, acordo e, por um instante, esqueço. Procuro seu rosto na tela do celular, espero aquela videochamada no café da manhã, imagino sua voz no caminho para o trabalho. Depois a realidade se apresenta e me lembra que nem sempre podemos conversar, que existem distâncias que não se atravessam apenas com vontade.
Então sigo o dia. Faço o que precisa ser feito, respondo às pessoas, atravesso ruas, resolvo problemas, finjo uma normalidade que, vista de fora, parece convincente. Mas há sempre alguma coisa faltando. A cadeira que você não ocupa. A mensagem que eu gostaria de enviar. O perfume que não está no ar, embora minha memória insista em encontrá-lo.
Quando a noite chega, as horas parecem maiores. É nesse silêncio que começo a disputar comigo mesmo. Uma parte tenta ser sensata: lembra que a vida tem seus caminhos, suas obrigações e seus intervalos inevitáveis. A outra só sabe perguntar por que é tão difícil estar longe de alguém que faz tanto sentido quando está por perto.
Eu já tentei distrair a cabeça. Mudar de assunto, encher o tempo, pensar em qualquer outra coisa. Mas o amor não se deixa enganar por ocupações. Basta uma música, uma fotografia, uma palavra solta em alguma conversa, e pronto: estou novamente no lugar em que seu abraço costuma existir.
Talvez a dor maior não seja a distância em si, mas a incerteza. Não saber quando poderei tocar seu rosto, ouvir seu riso sem uma tela entre nós, sentir seu corpo adormecer perto do meu. Não saber quantas noites ainda existirão entre um último beijo e o próximo.
E, no entanto, eu me lembro. Lembro que, quando estamos juntos, você faz coisas muito simples parecerem extraordinárias. Acordar, preparar um café, conversar sobre nada, permanecer em silêncio. Sua presença não precisa inventar acontecimentos para transformar o meu dia. Ela apenas existe, e isso basta.
Foi essa descoberta que tornou a saudade tão difícil. Você não é somente alguém de quem sinto falta. Você é a tranquilidade que encontrei sem saber que procurava. É o lugar em que minha inquietação descansa e, ao mesmo tempo, a pessoa que me devolveu a vontade de viver mais.
Às vezes tenho medo de transformar esse desejo de estar perto em pressa ou cobrança. Por isso escrevo. Para dar às palavras o peso que não quero colocar sobre seus ombros. Para lembrar que amar também é compreender o tempo do outro, mesmo quando o nosso parece demorar demais.
Não tenho resposta para tudo. Não sei como se cura um coração machucado pela saudade quando o abraço ainda está distante. Sei apenas que preciso cuidar do que sinto para que ele continue sendo amor e não se transforme em ferida.
Enquanto isso, carrego você nos detalhes. No brilho da lua durante o caminho, em uma canção ouvida por acaso, naquele instante em que fecho os olhos e quase consigo ouvir sua respiração junto à minha.
Se a distância insiste em nos separar agora, que ela não apague o que construímos. Que nos ensine, se for possível, a reconhecer o tamanho de um encontro.
E, quando esse encontro vier, eu não quero grandes discursos. Quero apenas encostar a testa na sua, respirar aliviado e deixar que o abraço diga tudo aquilo que a saudade me fez escrever.
Ivan Placido
