A Mulher Indomável

Silhueta de mulher diante de um céu alaranjado, evocando liberdade e força

ROMANCE • MISTÉRIO • LIBERDADE

Ela é uma mulher indomável. Não porque desconheça o afeto, nem porque precise provar alguma força ao mundo. É indomável porque aprendeu, entre tantas coisas que a vida lhe exigiu, que ninguém pode escolher por ela o tamanho dos seus sonhos, o rumo dos seus passos ou a maneira de sentir.

Há uma onça vivendo dentro daquela mulher. Não uma fera que se lança sobre tudo, mas uma presença atenta, de olhos abertos, que reconhece o perigo de longe e não entrega a própria liberdade a quem confunde amor com posse. Ela sabe ser silenciosa. Sabe esperar. E, quando é preciso, sabe mostrar os dentes.

Mas seria injusto enxergar apenas essa parte. Porque há também uma delicadeza que aparece nos gestos mais inesperados. Na forma como presta atenção às palavras que alguém disse quase sem querer. No cuidado com quem ama. Na risada que lhe escapa quando a guarda baixa e aquela mulher tão forte se permite, por alguns minutos, ser apenas feliz.

Às vezes penso que ela abriga uma porção de mulheres dentro de si. Existe a menina que ainda acredita em certas magias, mesmo depois de tudo. Existe a mulher madura, que conhece o peso das decisões e já não aceita promessas vazias. Existe a provocante, que sorri com o canto da boca e parece se divertir ao perceber como consegue bagunçar meus pensamentos. E existe a bruxa, dessas que não precisam de feitiços, porque aprenderam a enxergar onde a maioria das pessoas apenas olha.

Foi essa última que primeiro me desconcertou.

Não houve encantamento lançado ao vento, nenhuma palavra misteriosa, nenhum ritual sob a lua. Bastou um olhar mais demorado. Ela me observou como se pudesse atravessar a superfície daquilo que eu mostrava e tocar justamente o que eu ainda tentava esconder. Depois sorriu, com uma naturalidade quase cruel, como se não tivesse a menor responsabilidade pela confusão que acabara de provocar.

Eu, que sempre gostei de imaginar que conhecia os próprios caminhos, comecei a me perder naquela mulher de maneiras que não sabia explicar.

Não era apenas sua beleza, embora eu não fingisse indiferença às curvas do seu corpo, aos movimentos da boca, ao perfume que permanecia em mim depois de um abraço. Era a personalidade inteira. A capacidade de discordar sem perder a ternura. A coragem de dizer não. A liberdade com que defendia aquilo em que acreditava, mesmo quando seria mais fácil se acomodar.

Ela não precisava de alguém que lhe oferecesse uma gaiola bonita e chamasse aquilo de proteção. Muito menos de quem tentasse apagar sua natureza para se sentir maior ao lado dela. Precisava ser reconhecida. E eu começava a entender que amar aquela mulher exigia menos vontade de conduzir e muito mais disposição para caminhar junto.

Havia dias em que a onça acordava primeiro. Eu percebia pelo jeito de falar, pelo olhar decidido, pela impaciência diante de tudo que parecia injusto. Em outros, era sua delicadeza que me encontrava sem aviso, num carinho pequeno, numa pergunta feita com atenção, num abraço que não precisava de motivo. E havia noites em que a bruxa tomava conta de tudo: a lua parecia maior, a conversa durava mais, e um beijo seu era suficiente para tirar meu juízo do lugar.

Eu gostava de todas elas. Não porque cada versão fosse fácil de compreender, mas porque todas pertenciam à mesma mulher. E nada me parecia mais bonito do que perceber que ela não precisava escolher apenas uma maneira de existir para ser amada.

Em algum momento, compreendi que minha vontade não era domá-la. Nunca foi. Eu queria conhecer suas estradas, ouvir suas histórias, descobrir o que a fazia rir daquele jeito e o que a deixava em silêncio. Queria estar por perto quando sua coragem precisasse descansar e suficientemente ao lado, não à frente, para que ela continuasse sendo dona dos próprios passos.

Talvez esse seja um dos maiores desafios do amor: aprender que a presença não precisa se transformar em domínio, que a entrega não exige renúncia à liberdade e que duas almas podem permanecer inteiras mesmo quando decidem compartilhar a vida.

Olho para ela e penso na lua alaranjada surgindo sobre uma paisagem escura. A lua não pede licença para brilhar; tampouco muda de natureza para agradar quem a contempla. Apenas existe, bela em suas fases, e nos lembra que nem tudo o que fascina precisa nos pertencer.

Ela me olha outra vez. Aquele mesmo sorriso aparece, ligeiramente provocante. E eu reconheço a onça, a menina, a mulher e a bruxa reunidas em um único rosto.

Então me aproximo. Não para prendê-la. Apenas para beijá-la, se ela também quiser, e aproveitar a rara felicidade de ser alguém ao lado de quem aquela mulher indomável escolheu ficar.

Ivan Placido

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